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DE HISTÓRIA E LITERATURA
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Artigos Acadêmicos20 de abril de 2026

A Demolição do Palácio Monroe: Cinquenta Anos de um dos Maiores Crimes contra a Nossa História

Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho

É comum ouvirmos, brasileiros, dizer que autoridades detentoras de poder sobre cidades históricas como o Rio de Janeiro nunca exalaram o devido respeito por nossa história. É verdade. O Rio de Janeiro, com as várias construções que lhe restam, e graças à difusão e consolidação de uma mentalidade de preservação, ainda se mantém como uma pólis monumental (não só na natureza, mas, também, arquitetonicamente). Ocorre que esses legítimos movimentos não foram capazes de impedir um dos maiores crimes contra a nossa história: a demolição do Palácio Monroe.

 

O Palácio Monroe (cujo nome foi uma homenagem a um antigo Presidente estadunidense, James Monroe), foi uma estrutura desmontável, originalmente concebida a representar o Brasil nas mostras universais de Saint Louis, EUA, em 1904. Dentre vários pavilhões nacionais, o do Brasil foi agraciado com o primeiro lugar. Ouro ao nosso país. No retorno, foi remontado na Cinelândia, servindo como sede da Câmara dos Deputados de 1914 a 1922, e do Senado de 1925 a 1937 (em 1930, não esqueçamos, serviu de base às tropas revolucionárias). Em 1937, com a Constituição polaca, Getúlio Vargas fechou a totalidade do Congresso, passando o Monroe a abrigar o Ministério da Justiça, o Departamento de Imprensa e Propaganda e, por fim, o Tribunal Superior Eleitoral. No rastro da então democratização, retornou à condição de sede do Senado, até a transferência da capital a Brasília, em 1960. A partir disso, abrigou uma estrutura burocrática, apelidada de "Senadinho".

 

Não obstante sua gloriosa trajetória e a enorme beleza de sua estrutura, expositora de uma arquitetura eclética numa cidade marcadamente cosmopolita, bem como a pretérita glória da consagração de 1904, um grotesco jornaleco (assim por mim chamado devido à baixa estatura moral, e não pela inegável influência), aliado à ditadura que havia sido instalada em 1964, iniciou uma sórdida campanha para eliminá-lo. Nada impedia essas pessoas de demonizar o belíssimo palácio, sob os pífios argumentos de que "atrapalhava o trânsito" (embora estivesse localizado  no interior de uma praça), "impedia a visão do Monumento aos Soldados Mortos na Segunda Guerra Mundial" (como se não fosse possível apenas contorná-lo, a fim de visualizar a justa homenagem aos Pracinhas) e "era um empecilho às obras do metrô" (não sou engenheiro, mas creio que, se assim fosse, cidades altamente servidas por metrôs, como Paris e Roma, não mais teriam quaisquer marcos históricos a exibir, além, é claro, do fato de, numa foto produzida antes da demolição, a escavação das obras metroviárias aparecerem ao lado do palácio, sem a necessidade de danificá-lo). Além disso, sendo desmontável, não acredito que tivesse fundições suficientes a atrapalhar quaisquer atividades subterrâneas (se eu estiver errado, algum engenheiro, por favor, me corrija).

 

O referido jornaleco usava qualificações intelectualmente toscas e rudimentares para se referir ao pavilhão, chamando-o, por exemplo, de "monstrengo da Cinelândia". Tal campanha durou até o ditador Ernesto Geisel determinar a criminosa demolição, no início de 1976, ano em que nessa lindíssima cidade nasci. Aqui nasci, mas eu e minha geração, assim como as posteriores, não tivemos a oportunidade de observar a pérola que era o Monroe, em razão dos devaneios de mediocridade de uma "elite" jornaleira e de um estúpido regime que não se contentava em matar pessoas (o que, por si, já é totalmente abjeto), mas, também, fazia questão de assassinar a própria história do país que dizia governar.

 

Independentemente disso, o Rio de Janeiro prosseguiu a ser a cidade idílica e orgulhosa que, sim, sempre foi. Não por causa deles, mas, apesar deles.

 

Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho

Membro da Academia Brasileira de História e Literatura

 

Imagem: Augusto Malta. Palácio Monroe, c. 1910. Rio de Janeiro, RJ. Acervo IMS.